segunda-feira, 20 de junho de 2011

Notícias do Ateliê de leitura do Seminário 5

Nosso ateliê começou neste semestre a percorrer a via do significante aberta por Lacan desde seus seminários anteriores. Esta via, que ele dá como iniciada já no seu primeiro seminário, “Os escritos técnicos de Freud”, abre-se no seminário 5 com a retomada por Lacan do famoso chiste freudiano “familionário”, que ele designa como “tirada espirituosa”.

A importância deste seminário é porque marca o momento de seu ensino em que o simbólico tem a sua deferência máxima, momento em que a palavra tem o dom de apaziguar o real ao tentar nomeá-lo. Ainda não existe aqui o objeto a, o objeto não existe a não ser metonímico, sendo então o objeto do desejo o objeto do desejo do Outro, e o desejo sempre desejo de outra coisa, no sentido de que o objeto é sempre objeto perdido.

A estrutura da linguagem, com suas leis de funcionamento, quais sejam, a metáfora e a metonímia, é análoga à estrutura do inconsciente, que se manifesta através dos mecanismos de condensação e deslocamento. O significante tem como característica a composição em cadeias articuladas, formadas por uma série de anéis que por sua vez se atam uns aos outros e prendem-se a outras cadeias em forma de anéis formando outras cadeias. A formação dessas cadeias articula o significante em duas dimensões de discurso: combinação e substituição.

O sentido é sempre o efeito do deslizamento das duas cadeias do discurso do sujeito – a cadeia do discurso e a cadeia do significante, uma sob a outra, reciprocamente, até que um significante, que tem para o sujeito o valor de significante-mestre, detenha esse deslizamento provocando então o efeito de significação sempre a posteriori. 

Para o próximo semestre continuaremos a leitura minuciosa do seminário. Convido a quem quiser participar do ateliê que entre em contato com Marise Pinto, pelo endereço eletrônico: marise.pp@ig.com.br ou pelo celular: 99773706.

sábado, 18 de junho de 2011

ECOS DO ENAPOL: O BURACO E A LUZ

O V ENAPOL, realizado nos dias 11 e 12 de junho contou com mais de 1500 participantes e demonstrou ser uma ocasião de trabalho conjunto das três escolas que constituem a AMP-América: NEL, EOL e EBP.

As atividades começaram na terça-feira que antecedeu esse final de semana, com uma conferência de Éric Laurent, proferida na Academia Brasileira de Letras, com o título: “Além da felicidade, a época do mais!”. Nela, Laurent tratou de evidenciar que por trás das paixões e dos delírios familiares que rondam as crianças, tema que tratou no Brasil em 2008, o que se encobre são as paixões mortíferas da contemporaneidade, nas quais a criança entra como objeto a ser reparado pelas neurociências. A criança como “capital mais precioso”, numa retomada da expressão de Stalin, se vê ameaçada em nosso mundo, produzindo sintomas que enlouquecem as normas, encerradas em seus quartos, conectadas aos gadgets, frutos de técnicas de reprodução assistida. À questão de qual o lugar do psicanalista, Laurent nos orienta que é a de tomar a medida do enlouquecimento que produz a criança e fazer inconsistir essa paixão mortífera que está aí implicada.

Após a conferência houve o lançamento do livro “Loucuras, sintomas e fantasias na vida cotidiana”, que recolhe conferências de Laurent no Brasil.

Na quarta-feira, um interessante debate em torno do lançamento do livro de J-A Miller: “Perspectivas dos Escritos e dos Outros Escritos de Lacan” teve lugar na livraria da Travessa com Leonardo Gorostiza, Judith Miller e Angelina Harari. Essa publicação é a oportunidade para os leitores brasileiros de terem contato com o trabalho desenvolvido por Miller em seu seminário de orientação lacaniana, sobretudo em “Coisas de fineza em psicanálise”.

Na quinta-feira, Éric Laurent nos brindou com outra conferência proferida no Colégio dos cirurgiões, e dessa vez o tema foi o autismo. Laurent parte da pergunta: “de quê o autismo é o nome?” Ele retomou diferentes produções escritas de sujeitos autistas, assim como relatos de trabalhos de analistas em instituição com crianças autistas, para abordar a resposta particular que esses sujeitos encontraram para tratar o insuportável em que viviam. O que fica evidente é uma relação particular que os autistas têm com a língua. Para eles, o S1 não se borra, uma palavra pronunciada pode provocar-lhes horror. Seu corpo é um corpo que goza de si mesmo e é invadido pelo excesso, numa dimensão do real onde nada falta. A solução desses sujeitos passa pela relação com a letra, as listas, os objetos de caráter particular. Laurent nos diz que diante dessa “forclusão do buraco”, desse amor morto, devemos buscar desfazer um modo específico de relação com a letra, para diversificá-la. É a busca de produzir, em suas belas palavras, “a instância da letra tronco” como tratamento do acontecimento de corpo para esses sujeitos.

Já podíamos encontrar nessa conferência o viés através do qual Eric Laurent desenvolveu o tema do V Enapol: A saúde para todos, não sem a loucura de cada um.

Na sexta-feira nos reunimos nas jornadas do Cien e na conversação dos Institutos do Brasil, onde a discussão frutífera foi animada por Leonardo Gorostiza. No intervalo do almoço foi exibido o filme “La première séance”, de Gerard Miller. Durante todo o Enapol pudemos assistir a vários clips relacionados ao tema do encontro, projetados em telas distribuídas pelos saguões.

Na sexta-feira à noite nos encontramos numa festa deliciosa no Clube dos macacos, local maravilhoso no meio da mata, com muitas caipirinhas, samba, alegria e direito a havaianas com a logomarca do encontro.

Assim, no sábado, quando o encontro oficialmente começou, o trabalho já estava avançado. Pela manhã tivemos seções plenárias com a conferência de Éric Laurent intitulada: “Pluralidade das razões subjetivas”. Laurent parte da recusa da ideia de que o que temos em comum é um funcionamento psíquico. O sujeito não é constituído pelo que aprendeu, mas por aquilo que escutou e pela maneira que foi tocado pela palavra. Para as neurociências, a loucura de cada um se reduz a um desfuncionamento. Passando pelas formulações de Antonio Damasio, Laurent nos diz que a experiência analítica funciona a partir do apagamento da consciência no momento do gozo. O êxtase do gozo demonstra a existência em nós de algo que é fora do corpo e não funciona no modelo dos traços. O primeiro Lacan definiu a memória como um sistema de buracos que são essenciais. No texto “A equivocação do sujeito suposto saber”, ele apresenta um inconsciente centrado nesses buracos e diz que ele não é um recordar-se do que se sabe. É por isso que em lugar de usar o verbo se souvenir, Lacan usa se rappeler, para fazer ressoar na língua que recordar é chamar-se a si mesmo a partir de um significante. É se fazer presente diante de um significante, que pode ser tomado como um ponto de enganche.

Nessa sequencia, o inconsciente vai ser tomado por Lacan como uma luz que não dá lugar a uma sombra. Sou visto por essa luz e não posso me representar e é isso que Lacan chama em “Lituraterra” de buracos na língua. Não é só o buraco no Outro, S(A barrado), mas o buraco que está dentro da minha experiência e me atravessa. O que se encontra aqui enfatizado é que há o buraco central da experiência do encontro com o gozo. Cada um fala sua própria língua, inventada na particularidade do encontro falho com o gozo e nesse esforço de nomear-se a si mesmo, constrói um nome próprio, tal como fez Joyce. O riverum de Finnegans Wake é um esforço constante que cada sujeito, no final da análise, pode encontrar: seu esforço particular de fazer equivocar a língua produzindo a nomeação paradoxal que é o sinthoma. A nomeação desse buraco do gozo é impossível, mas esse impossível é tratado pelo esforço de fazer entrar na língua um elemento estranho que vai continuar a sê-lo, trabalho infindável. Assim, temos na experiência analítica o buraco que tem forma, o objeto a, e o buraco que não tem forma, do qual fala Miller e que coaduna com a ideia do inconsciente luz.

Encontramos no centro da elaboração de Laurent a questão do buraco, aquele mesmo que ele escolheu deixar no meio da sala ao final de sua conferência sobre o autismo.

No intervalo do almoço houve o lançamento do livro cuidadoso do V Enapol, onde textos de diversos colegas tratam do tema de maneira interessante e diversa.

As mesas de trabalho durante o sábado à tarde e no domingo de manhã foram cheias de conversa e a interlocução prévia dos trabalhos demonstrou ser uma maneira de trabalho que gerou bons frutos.

A mesa dos AEs foi, como sempre, emocionante e cheia de ensinamentos. Ali batia o coração da Escola. Os comentários de Éric Laurent buscaram extrair a questão do destino do gozo quando ele não está mais condenado ao contrabando, a estar às escondidas na fantasia. A fantasia pode ser tomada numa fórmula, ao passo que o acontecimento de corpo se passa em um corpo particular. É o viés do “ultrepasse”, tal como Miller vem nos indicando a ler o passe, que trata do novo investimento pulsional, mais além do anonimato que encontramos na frase da fantasia, numa topologia que não se localiza no espaço do quadro, e que não conta com o apoio da imagem.

A falta de nossos colegas do sul e da Argentina se fez sentir, apesar da aventura de vários deles para driblar as intempéries. Eles demonstraram do forte desejo e da transferência de trabalho que sustentam nossos encontros.

Agradecemos a todos os que trabalharam tanto para esse encontro. A presença dos inúmeros jovens analistas demonstra a renovação de nossas Escolas, presentes em nossas cidades e em nossa atualidade.

Agradecemos também aos nossos convidados, Judith Miller, Leonardo Gorostiza e Éric Laurent pelo trabalho e pela presença viva entre nós.

Nos esperam o congresso da AMP em abril de 2012, em Buenos Aires, e o XIX Encontro Brasileiro que ocorrerá em novembro de 2012, em Salvador, cujo  tema instigante foi anunciado por seu diretor, MarceloVeras, no final do Encontro:  “Mulheres de hoje – figuras do feminino no discurso analítico”.

Cristina Drummond

terça-feira, 17 de maio de 2011

Comentário sobre o filme: "Uma relação pornográfica", por Gresiela Nunes da Rosa

O título do filme nos engana, ou melhor, nos deixamos enganar pelo título do filme. Sim, se trata de uma relação pornográfica, mas o filme não é pornográfico. O filme não é porque não se reduz à relação pornográfica, já que aparece também, e muito mais, uma relação de amor.
Em relação ao filme, tem se a sensação de que algumas questões ficam abertas, sem resposta, sem uma aparente, boa e satisfatória resposta.
Primeiro, a relação pornográfica: se trata de uma mulher que procura um homem com a finalidade de realizar uma fantasia. Apenas isso, uma questão sexual, e, portanto, pornográfica. Em seus encontros, nos primeiros encontros, realizam a fantasia, que parece ser a dela. E inusitadamente o diretor do filme nos mantém fora do quarto do hotel em que vão realizá-la. Não vemos sua atuação, e nada escutamos sobre ela. Ficamos curiosos em relação a ela? Aposto que a maioria de nós fica. E por que será que queremos saber sobre ela, sobre que faziam aquele homem e aquela mulher naquele quarto? E por que será que o diretor não nos deu esta informação? Não seria a nossa curiosidade um querer saber sobre como se realiza plenamente uma satisfação sexual? Não ficamos com a crença de que este casal produziu uma verdadeira relação sexual porque pode realizar a fantasia? Uma crença de que eles puderam gozar verdadeiramente da sexualidade?
Se nós víssemos ou soubéssemos da fantasia, além da relação, o filme também seria pornográfico. E possivelmente não nos emocionaríamos com ele, e pouco teríamos para falar sobre ele. É capaz até de que saíssemos decepcionados da frente da tela. Me recordo de um tema que se passou numa recente novela da televisão, em que um personagem tinha um segredo sexual, uma forma de se satisfazer, que ao longo da novela, causou repugnância nos outros personagens que descobriam e muita curiosidade no público, e ao final da novela quando se revelou o segredo, houve uma decepção geral dos espectadores que proclamavam um “é só isso!” Provavelmente diríamos o mesmo em relação a este casal do filme: “era só isso!” Para a qualidade do filme, isso ficou obsceno, no sentido literal, fora da cena.
Mas o filme não foi pornográfico, e esta relação que teve como finalidade primeira a realização sexual, foi interpelada pelo amor.
É um filme de amor? Por que não dizê-lo. Temos ali um homem que logo no início se declara romântico. Ele guarda lembranças deste encontro, a revista em que viu o anúncio dela. Poderia ser por fetiche, mas ele declara que é por romantismo. E de fato é um homem muito doce, muito delicado, que se deixa amar. Encontramos algo de feminino nele, não sem ser fálico. É ele quem introduz o amor na cena. Ela reconhece, sabe que foi ele que disse a primeira frase, fez o primeiro convite para que fizessem algo fora do combinado, como sair para jantar. Ali, ainda que sem os elementos de reconhecimento social, algo mais íntimo do que a fantasia sexual aconteceu, trocaram palavras, e isso foi excitante ao que parece, já que retornam ao hotel, mas agora seduzidos um pelo outro, não mais para realizar apenas uma fantasia particular. Ela diz que ele é integro. Integro? Será que quer dizer que não é um mero objeto sexual? Ela sabe que eles se desejam, isso lhe é perturbador. Se no início era apenas um utilizando o corpo do outro para satisfazer-se a si mesmo, agora se trata de desejar o outro. É o que diz Lacan: “o amor permite ao gozo condescender ao desejo”. E ela diz: “E se fizermos amor?” E ele responde, “mas não é o que já fizemos?” Ela, a dona da fantasia, sabe que o amor não se satisfaz com a fantasia, ela quer agora fazer “normal”, porém, ainda numa posição dominadora, é o que ela pode, e ele consente.
Aí neste ponto somos convidados a entrar no quarto, do amor podemos saber, porque não podemos apreender. Podemos ver a cena de amor, porque dificilmente corremos o risco de nos entediar. Se a fantasia é capaz de gerar um “é só isso”, a amor nos faz querer saber mais, e falar mais, e não nos autoriza a nos satisfazer com totalidade.
E ela agora se sente sem controle, está perdida, chora. No amor aparece um “Não se sabe onde vai chegar, aonde pode ir”. Algo transborda, e não é o amor aquilo que não tem medida?
Muito engraçado ver a cena do próximo encontro, eles brigam, chegam a ser grosseiros um com o outro, ficam insatisfeitos um com o outro. Agora são um casal? O amor aparece como um terceiro na relação e a desajusta.
Não é uma típica tragédia romântica, como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, que no final estão fadados a não ficarem juntos por um mal entendido que leva à morte. Mas sim, a morte está ali presente no filme, logo no momento em que parecem ter o encontro mais apaixonado em que estão cheios de excitação. A tragédia do outro casal, do homem que tem um infarto e da mulher que se suicida faz lembrar a máxima romântica de que o amor não pode durar, não se pode fazer vida cotidiana se se quiser eternizar um amor.
Já como casal, ela faz o que fazem as mulheres, demanda uma declaração de amor. E ele, por outro lado, teme o ridículo. Ela diz que o ama, que pensa em envelhecer e juntar dentaduras... agora ele se surpreende, se emociona, chora, e se defende.
Juntos sem realizar a fantasia, sem nem mesmo alguma intenção sexual, conversam, contam suas falhas, ela tem fobia de aranha, ele de avião, ela tem um tique... ele a seduz, e ela mostra sua careta, e ele diz “agora, por um segundo você me deu tudo”. Agora ela lhe deu o mais íntimo, que certamente não era a fantasia sexual, ela lhe deu sua castração, aquilo que em si lhe causa horror, e ele a acolheu, e a amou.
E decidem que se amam, e querem seguir juntos... mas as palavras saem diferentes, justificadas pelo que imaginam ser o desejo do outro. Erraram?

Comentário apresentado no IIº Festival Psicanálise vai ao Cinema, em 14 de maio de 2011

domingo, 8 de maio de 2011

Às vezes o simbólico dá uma esticada e algo novo surge no dia a dia da comunidade.

Coisas que acontecem. Poucos dias depois do IX Congresso da EBP, de Tiradentes, cujo nome foi “Os limites do simbólico na experiência psicanalítica hoje” e poucos dias antes da realização do Enapol 2011, do Rio, cujo título é “Saúde para todos não sem a loucura de cada um”, o Supremo Tribunal Federal brasileiro decidiu que a união estável de pessoas do mesmo sexo, biológico, tem, a partir do dia 5 de maio de 2011, os mesmos direitos e as mesmas obrigações que a união estável de pessoas de sexo, biológico, diferente. Algo sobre o que não se podia legislar foi afetado pelas palavras decididas de alguns juízes e uma nova realidade, uma nova ficção, surge no dia a dia brasileiro. Acho que é lícito pensar que este avanço simbólico efetivado pelo STF coloca um limite ao gozo mortífero presente no discurso dos que acreditam que a sexualidade do ser falante é coisa já decidida por algum saber além do humano. 
A experiência psicanalítica hoje terá que se a ver com esta nova ficção, jurídica, que tanta rejeição já produziu no campo psicanalítico, assim como terá que saber virar-se com que união estável para todos não poderá nunca ser sem a loucura de cada um. 

Oscar Reymundo 
Psicanalista, EBP/AMP

2º Festival Psicanálise vai ao Cinema

segunda-feira, 2 de maio de 2011

II Festival psicanálise vai ao cinema

 O "II Festival psicanálise vai ao cinema" acontecerá nos dias 13, 14 e 15 de Maio próximo.O tema do festival esta ano é a loucura de cada um, seguindo o tema proposto pela Escola Brasileira de Psicanálise  que é "Saúde para todos, mas não sem a loucura de cada um". Pretende  alertar contra a marcha sem limites de um higienismo total, uma ilusão de totalidade em relação as questões subjetivas, como se desse para controlar, prevenir, ou "domesticar" integralmente nossas emoções. Na realidade, para a psicanálise trata-se de apostar mais na singularidade, no sujeito perceber como ele age, sente, qual é seu sintoma e a partir daí saber-fazer com ele no social, fazer laço social. Temos como consequência dessa atitude higienista sujeitos sem referência de si, perdidos nesse "para todos" opressor. Esperamos você para discutir esta e outras questões que certamente surgirão a partir dos filmes que serão exibidos.
Cinthia Busato, psicanalista - EBP-SC

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Comentário do filme "Entre muros", por Sandra Guimarães

Como fui convidada a participar deste debate, mas não me foi repassado um tema especifico,acredito que possa navegar por varias observações, fazer algumas pontuações, sem ter o compromisso de aprofundar um tema especifico.
Não tenho conhecimentos prévios referentes ao sistema educacional Frances, vou contribuir com uma leitura de minha experiência como aluna, educadora, e mãe de alunas no sistema educacional brasileiro.
E, antes de qualquer coisa, gostaria de registrar que o dia de ontem, 07 de abril/ 2011, marca nossa historia. E, seria quase que inevitável abordar, hoje, temas relacionados à escola sem fazer referencia a tragédia de ontem em uma escola no Rio de Janeiro. Sem querer me alongar sobre esta questão, pois não é este o nosso objeto de discussão... Vou fazer uso de uma pergunta, feita ontem, por uma educadora e pesquisadora aqui de Florianópolis.  Em meio a uma enxurrada de reportagens informativas, sensacionalistas, ou perplexas, e em busca de um sentido... Neste contexto aparece a entrevista a uma educadora, e ela aposta na importância de se fazer uma pergunta e deixa no ar a seguinte interrogação: Por que este sujeito escolhe a escola como alvo de sua violência? Por que a escola?

Passemos agora ao filme-

Um pátio cinza... Sim começo minha fala por este espaço focalizado no filme de vários ângulos, em diversas situações, com ou sem alunos, e com ou sem professores. Este espaço cinzento do piso as paredes, e que se permite ganhar colorido com a presença dos jovens que ali circulam. Restrito a um retângulo de paredes altas... entre muros...
O filme começa com este professor de Frances, François Marin, Sr Marin, chegando a uma escola do ensino fundamental, da periferia de Paris, e na seqüência em uma reunião geral de recepção aos novos professores. A escola esta sendo preparada para receber os alunos, limpeza do espaços, ajustes nos móveis, distribuição de carga horária e informações sobre as turmas e seus respectivos integrantes.
Um primor de realidade o repasse de informações sobre os alunos (“bonzinho, nada bonzinho”) e devo confessar que na nossa realidade os professores, por vezes são mais cruéis, utilizando um termo nada “bonzinho”. Assim, os professores novos recebem as boas vindas, os horários, e um diagnostico (rótulos) de turmas e alunos.
Este professor, que é também supervisor desta classe, de sétimo ano, o que para nós poderá ser referenciado com o regente de sala, ou professor representante de turma (?!), parece um produto das relações de poder, e da violência ora velada, ora explicita existente na instituição escolar.
Já no primeiro encontro com a turma a sua apresentação de certezas, com relação ao tempo de aula, é destituída de coerência, chamando-o a rever um equivoco quanto à literalidade de seus argumentos. Ao que ele no papel de professor não assume. Em seguida novamente um pequeno embate com relação à apresentação dos nomes, ele manda escrever os nomes para a apresentação, mas não explica o porque. Faz-se necessário a intervenção de uma aluna, que também solicita a participação do professor na atividade. Aqui fiquei pensando, “putz” este cara tá nervoso, mesmo ele não gostando de ser chamado de “cara”... E fazendo uma articulação com a teoria lacaniana se para ocorrer à transferência é necessário que este sujeito que busca saber tenha o outro (aqui o professor) no lugar de sujeito suposto saber, como aquele que pode ocupar um lugar de confiança, no sentido de saber algo que ao sujeito interessa. Neste primeiro encontro o professor pode-se dizer destituído de seu lugar de saber, e ele se dá conta disto. E aqui fiquei pensando o quanto da escola tradicional tem este professor, pois um professor construtivista teria outra entrada nos temas, ou, ao se deparar com um equivoco assumiria este de outra forma, mesmos rígida. Afinal o erro é entendido como produtivo como possibilidade de pensar o novo (de novo)...
Procurado pelo professor de historia para trabalhar livros em comum, François deixa explicito sua falta de credibilidade na capacidade de seus alunos, e parece pouco entusiasmado com a proposta.
Neste contexto contemporâneo de uma escola integrada por sujeitos (alunos) de varias culturas (chineses, marroquinos, africanos, etc), religiões e classe sociais, o roteiro leva em conta a questões próprias da adolescência, e da adolescência neste momento histórico.
O filme apresenta uma longa cadeia de atividades propostas a partir do professor, ao que os alunos participam como podem se defendendo das ironias, caretas e advertências do professor.
François parece não levar em conta a linguagem que ao mesmo tempo serve de referencia (código) para uma determinado grupo cultural (e familiar) e a um grupo de pertencimento por afinidade (adolescentes). Não considera que ao trabalhar as palavras e seu significado, também se trabalha com o pertencimento do sujeito a um determinado grupo, e conseqüentemente a angustia da perda deste lugar. E não apenas a falta de vocabulário, como parece marcar o professor.
Os alunos são corajosos, não tem vergonha de perguntar, mesmo com a possibilidade do “professor pegar pesado”.
Uma cena novamente desmascara o professor, quando uma aluna pergunta: Como sabemos o que usamos para escrever e falar?
Ele, o professor, se perde ao sugerir intuição como forma de direcionar a escrita, ao que outro aluno questiona o significado de intuição.
Segue a cena que vai anunciar a expulsão de Souleymane, a pergunta sobre a sexualidade do professor. O aluno ao ser porta voz da curiosidade, uma tanto maldosa, questiona mais que a sexualidade do professor, questiona seu papel, sua função - Poderia ser escutada como: o que você (François) esta fazendo aqui? Mas, tomada como uma afronta, reprimida de ação punitiva (a pergunta), o professor até tenta levar adiante um trabalho pedagógico com este aluno. Mas, Souleymane, desconfia da atitude do professor com ralação ao seu auto-retrato, tanto é que pergunta: você esta me gozando?
E, para evitar o meu, agora longo comentário, fiquei com a certeza da violência não assumida de François, que contraditoriamente pode tratar de forma grosseira os alunos, mas que se coloca como alguém acima de punição, fumando em lugar proibido, ao permitir o uso do celular, ao relatar apenas o que lhe é conveniente nos relatórios, e ao arbitrariamente explicitar que o professor pode dizer coisas que os alunos não podem. Ele até propõe discussões e se coloca com duvidas na frente dos outros professores nas questões relacionadas às punições (12 no ultimo ano), contudo, não consegue avançar. Por que, quem sabe, não queira se implicar com o outro – o aluno? O aluno que frente à autoridade imposta do professor e do conselho disciplinar não pode ser acolhido, escutado.

Sandra Guimarães, 08 abril/2011.