Mostrando postagens com marcador Pandorga. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pandorga. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de maio de 2012

O VIII Congresso da AMP, por Eneida Medeiros Santos

Aproximadamente dois mil e trezentos participantes. Este é um número bastante significativo de psicanalistas que participaram do VIII Congresso da Associação Mundial de Psicanálise, que foi intitulado “A ordem simbólica no século XXI não é mais o que era – Que consequências para a cura?” e que aconteceu na maravilhosa cidade de Buenos Aires. Esse número reflete não apenas a impressionante ressonância que a psicanálise encontra na comunidade argentina como também desmente as afirmações tão frequentes na mídia de que a psicanálise está obsoleta. 
Em sua fala de encerramento, Gabriela Camaly, psicanalista da EOL, disse ter encontrado, no elevador do hotel onde acontecia o Congresso, com um médico pediatra que participava pela primeira vez de um Congresso de psicanalistas. Ao ser interpelado por ela sobre se havia gostado do mesmo, ele diz que, quando há congressos de medicina, ele observa que as pessoas em geral pouco assistem às mesas e mais se ocupam de fazer turismo pela cidade na qual acontece o evento. Ali, ao contrário, ele observou, para seu espanto, que havia filas para a entrada nas plenárias e nas salas simultâneas. De uma forma muito simples, este pediatra se depara com um elemento muito importante que é o que mantém a psicanálise lacaniana viva, o desejo e, porque não, o gozo. Os lacanianos são assim: quanto mais orientados pelo real que os habita, mais dispostos estão a introduzir a singularidade no seu ofício. É o que produz essa impressão viva do movimento em direção ao saber, movimento que não está livre de uma perturbação no sujeito. 
O acento colocado pelos que expuseram seus trabalhos nas plenárias, fundamentalmente os que abordaram as aproximações ou distanciamentos existentes entre o discurso da ciência e o discurso analítico, recaiu sobre a importância da invenção de um novo vínculo entre a psicanálise e a ciência. Por exemplo, François Ansermet diz que, de um lado, a psicanálise não pode entrincheirar-se em oposições com a ciência e, de outro, o código genético – paixão dos cientistas – existente em cada manifestação dita patológica, como nas crianças autistas, por exemplo, não entrega a causalidade do mal que a ciência quer revelar. 
Desta forma, um pediatra que está movido pelo discurso científico pode se deixar surpreender, na sua clínica com as crianças, pela importância que existe naquilo que não pode ser localizado geneticamente. Ao longo de sua vida profissional, pode esbarrar no discurso analítico e assim concluir que a criança, através de seu corpo, guarda e ao mesmo tempo revela em seu sintoma um saber sobre o segredo que reside na família e no casal parental, assunto que foi muito discutido na reunião do CEREDA (acrônimo francês de: Centro de Estudos e de Pesquisas sobre a Criança no Discurso Analítico), que contou com a participação de Judith Miller (responsável pela rede no mundo) e que aconteceu no calor dos debates do Congresso. 

Eneida Medeiros Santos - EBP/AMP - Coordenadora do Núcleo Pandorga.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

SAIBA POR QUE ESSE DIA NÃO PODE PASSAR EM BRANCO…


O dia 2 de abril é o Dia Internacional pra a conscientização do Autismo. A este dia foi consagrado a cor azul como símbolo do autismo porque esta é uma patologia mais comum nos meninos – na proporção de quatro meninos para cada menina, segunda a OMS.
Para a psicanálise trata-se no autismo da ausência do Ideal-do-eu, elemento simbólico que representa a criança no desejo da mãe. Seu diagnóstico leva em consideração este distúrbio estrutural da constituição do sujeito, considerado por alguns psicanalistas um fenômeno no campo das psicoses.
Para dar continuidade à investigação sobre o Autismo, convidamos aqueles que se interessarem pelo assunto a fazer parte do Ateliê de Psicanálise aplicada ao Autismo, que se reunirá no dia 30/04/2012, com a apresentação do filme “Elle s’appelle Sabrine” e posterior conferência da psicanalista e coordenadora do Ateliê, Rosane Padilla, intitulada: O duplo no Autismo.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Conferência de Philippe Lacadèe - resenha de Eneida Medeiros Santos

Philippe Lacadée, Psicanalista, Membro da Escola da Causa Freudiana de Paris e da AMP, Consultor do CIEN e autor de “O mal entendido da Criança” e também de “Robert Walser – O passeante irônico”, esteve em Florianópolis no dia 26 de outubro para uma conferência do Núcleo Pandorga. Ele falou sobre “O que nos dizem as crianças e os adolescentes de hoje sobre seus sintomas”.
Inicia dizendo que as crianças e os adolescentes que encontramos hoje nos consultórios e nas instituições nos ensinam o que há de novo no quarto da criança, como dizia Freud, e quais as repercussões que isso tem na sua maneira de ser e nos seus sintomas. Para Freud, o comportamento das crianças depende daquilo que aconteceu em seu quarto, mas nem por isso ela deve ser desculpada. É aí, no quarto da criança, que Freud vai encontrar os objetos pulsionais, os objetos da demanda, oral e anal. Mas lá estão também os objetos do desejo que Lacan chama de pequeno a, o olhar e a voz. É através de seus pais que a criança encontra esses objetos, ou seja, eles dependem da relação do corpo vivo da criança com o Outro que se ocupa dela, com a palavra do Outro.
Entretanto, a criança tem uma parte da responsabilidade naquilo que acontece em seu quarto e é com isso que o psicanalista vai operar: com aquilo que foi o evento no corpo da criança, o significante que teve um ponto de impacto no corpo da criança e com seu pensamento, com o uso que a criança fez deste significante.
O quarto da criança de 1914 não é o mesmo do quarto da criança do século XXI, que é cheio de objetos gadgets que vêm no lugar dos objetos pequeno a e anulam a presença significante e desejosa do Outro, objetos que modificam a relação com o conhecimento. Eles permitem obter o efeito de mais-de-gozar, mas não falam.
Lacan pensava que o objeto gadget se tornaria um sintoma para a criança, e ela não aprenderia mais pela voz de seus pais ou de seu professor, ligando-se numa tela virtual para se aparelhar a um aparelho. A criança se tornou um tipo de cliente que muito rapidamente tem acesso a noção de propriedade privada. O problema é que a relação da criança com a demanda e o desejo fica perturbada. A criança não demanda mais, ela exige, e fica difícil para o professor ou os pais apresentarem-se como terceiros, portadores de uma palavra capaz de resolver a angústia da criança, de dar uma palavra àquilo que pode acontecer de enigmático no corpo ou no pensamento da criança. A criança prefere tratar sua angústia ou sua falta diretamente pelo objeto, que está próximo ao seu corpo, como se fosse uma parte dele e que depende da vontade dela, o que permite que ela não tenha acesso ao seu desejo. É aí que o objeto gadget se torna sintoma para a criança porque induz a um comportamento que corta a relação com o Outro. No lugar do sintoma como formação do inconsciente há mais um modo de vida, um estilo de vida no qual a criança está ligada ao seu objeto.
Se escutarmos bem a criança, observaremos que ela diz que o objeto serve para que ela invente jogos ou personagens. É preciso, e aí Lacadée cita Heidegger, dizer sim ao objeto gadget mas ao mesmo tempo não. A criança pode dizer para quê este objeto lhe serve. O príncipe moderno da adolescência, Arthur Rimbaud, alojava a verdade de seu desejo na sua alma e no seu corpo. Na hora atual aloja-se mais a verdade do desejo no corpo, aloja-se o gozo no objeto prêt-à- porter, sendo que é o objeto que goza do sujeito e não o contrário.
O problema dos objetos gadgets é que eles fazem crer que se pode recuperar aquilo que foi perdido para sempre. Todo sujeito se constrói a partir de uma perda, daí a importância de falar a um psicanalista, mesmo quando se é criança. A experiência da palavra endereçada ao Outro pode dizer algo além daquilo que se fala. É importante captar como se constrói para uma criança a relação com o objeto (complexo do semelhante em Freud) a partir do semelhante, o próximo que está aí para se ocupar dela e, até agora não se inventou nada melhor, que se chama uma mãe. A mãe é portadora dos objetos, mas ao mesmo tempo é portadora do tempo, do tempo que introduz falta, do tempo dela. É diferente ter relação com uma mãe como objeto, que é portadora de uma falta e de um tempo diferente do que ter uma relação com um objeto gadget que não tem o tempo dele, já que o tempo só depende da vontade da criança.
 O que acontece no quarto da criança é importante porque o objeto gadget, que a criança está ligada diretamente, escapa ao tempo do Outro. A criança vai ter cada vez mais dificuldade em aceitar o tempo do Outro. Lacadée diz que há aí uma discussão interessante: será que é mais importante o tempo da mãe, quando diz, por exemplo, “a comida está na mesa” ou o tempo da criança, que está ocupada com seu computador? O que mudou é o tempo da mediação do Outro, então, para que servem os seres humanos? Quem, hoje, perde seu tempo lendo e, principalmente, lendo em voz alta, uma historia para seu filho?
A época atual é aquela que Jacques Alain Miller chamou de modernidade irônica, na qual é mais importante o objeto do que a transmissão dos ideais, mas a repercussão disso é que se modificou a maneira de falar, é a tese de Lacadée que está no seu livro “O despertar e o exílio”, porque o adolescente, como diz A. Rimbaud, deve encontrar uma língua, sua língua, aquela que está conectada diretamente com sua sensação, e não aquela que vem dos outros, dos pais, já que o adolescente rejeita o que pode vir do Outro. Mas são os objetos gadgets que fazem autoridade para ele, pois demandar ao Outro pode produzir angústia, como atestam as fobias escolares e outros tipos de fobias.
 Lacan diagnosticava em 1964 o medo dos psicanalistas com relação aos sintomas que a criança apresenta e Lacadée diz: é aí que deveria se estar o futuro da psicanálise do século XXI, situada em relação ao que pode representar a criança. Lacan indica que é preciso se deixar levar a passeio pela criança, quer dizer, levar em conta o que a criança diz, mesmo no século XXI. O ódio é a impossibilidade de dizer algo do ser, justamente o que ocorre no momento da adolescência porque não há nenhum saber do Outro que vá dizer o que o adolescente deve fazer com a sua sexualidade. Poder falar com palavras é a maneira de bem dizer e os adolescentes de hoje, surpreendentemente demandam falar . A psicanálise favorece às crianças e aos adolescentes, com a condição de que o psicanalista não tenha medo do sintoma que a criança apresenta, não tenha medo do objeto gadget, que seu gadget ou seu sintoma fóbico  designem pontos do real e é aí que os psicanalistas têm medo. Os psicanalistas têm medo de olhar o real de frente e, na realidade, eles não fazem senão acolher o sintoma. Para saber o que preocupa os adolescentes é preciso dizer sim, seja ao seu sintoma, seja aos seus objetos, mesmo que eles sejam objetos insuportáveis para depois poder permitir que eles encontrem a forma pela qual cada um pode utilizar o gadget, como outrora a gente utilizava uma mãe ou um pai. A fábrica do cotidiano é isso, é saber como cada criança ou cada adolescente inventa o sistema de gozo ao qual ele vai se conectar. Antigamente se conectava mais a um pai ou a uma mãe, mesmo que em certo momento se separasse deles, hoje o objeto sempre chega antes dos pais o que faz com que a linha divisória jogue entre aquilo que é imposto e aquilo que é inventado.
A gente pode partir do diagnóstico de Hannah Arendt de 1954, quando ela dizia que os adultos não são mais responsáveis pelo mundo que eles oferecem aos seus filhos.  A criança é um enigma, enigma para seus pais e para ela mesma. Ela se faz perguntas como um pequeno metafísico. Quando Lacan lê as observações de Freud sobre o Pequeno Hans, ele diz que no fundo a criança é um lógico. Ela se faz perguntas essenciais e, não há muitas perguntas essenciais, sobre o sexo e a existência e, muito cedo a criança faz essas perguntas. Ela vai utilizar mitos ou invenções. Agora, por causa do objeto gadget, é menos fácil para ela utilizar essas questões, as quais os pais são sensíveis, porque, muitas vezes, ela está plugada, ligada ao objeto até mesmo antes de se fazer uma pergunta. O objeto lhe traz uma resposta muito antes que ela tenha a possibilidade de formular uma pergunta. E é o que Lacan dizia sobre a psicose, que o psicótico tinha a resposta antes da pergunta. Na nossa época, diz Lacadée, os objetos que os pais colocam no quarto da criança não permitem que ela tome o tempo lógico de fazer a pergunta.
É por isso que o problema dos objetos gadgets é que eles vêm muito rapidamente responder às questões essenciais de nossa sociedade que instalou o mais de gozar no lugar do querer dizer. É o que se deduz do último ensinamento de Lacan, graças à leitura que faz J.A. Miller. Estamos numa época que entendeu muito rapidamente que o querer gozar é o que domina o gozo e as crianças dependem disso. O risco é que elas percam o gosto de falar. No fundo a criança compreendeu que no mundo dos adultos, eles próprios não sabiam como lidar com a vida. A gente espera dos pais que eles mostrem aos seus filhos como a vida não é fácil de viver. É esta a verdadeira transmissão: demonstrar ao seu filho ou a sua filha como a gente se arranja com seu próprio gozo.
O problema dos objetos gadgets é que se tornam muito rapidamente objetos dejetos. Lacan retoma isso e demonstra o problema de que o ser humano, ele próprio é um objeto gadget. O que permite a cura analítica, o que permite devir um psicanalista é que desde si mesmo ele encontre o valor de objeto dejeto que ele foi, que poderia cair e isso permite que depois ele se ofereça para uma pessoa que venha lhe falar. Isso acontece porque ele encontrou este ponto de real na sua cura. Lacan pensava que os objetos gadgets não iriam animar o ser humano. Ele dizia isso em 1964. Mas é mais complicado que isso, afirma P. Lacadée,  “eu mesmo encontrei vários adolescentes que se tornavam animados através de seus personagens virtuais”. Lacan tem razão sim, mas quando ele diz que desses objetos pode se fazer sinthome. É preciso estabelecer a diferença entre sintoma, portador de uma mensagem que deve ser decifrada e o sinthome, que corresponde ao modo de gozar e, para alguns sujeitos, isso pode efetivamente servir para se nomear, nomear-se a partir da relação que eles têm com o objeto gadget.

Eneida Medeiros Santos- Membro da EBP e da AMP. Coordenadora do Núcleo Pandorga