quarta-feira, 27 de abril de 2011

Comentário do filme "Entre muros", por Sandra Guimarães

Como fui convidada a participar deste debate, mas não me foi repassado um tema especifico,acredito que possa navegar por varias observações, fazer algumas pontuações, sem ter o compromisso de aprofundar um tema especifico.
Não tenho conhecimentos prévios referentes ao sistema educacional Frances, vou contribuir com uma leitura de minha experiência como aluna, educadora, e mãe de alunas no sistema educacional brasileiro.
E, antes de qualquer coisa, gostaria de registrar que o dia de ontem, 07 de abril/ 2011, marca nossa historia. E, seria quase que inevitável abordar, hoje, temas relacionados à escola sem fazer referencia a tragédia de ontem em uma escola no Rio de Janeiro. Sem querer me alongar sobre esta questão, pois não é este o nosso objeto de discussão... Vou fazer uso de uma pergunta, feita ontem, por uma educadora e pesquisadora aqui de Florianópolis.  Em meio a uma enxurrada de reportagens informativas, sensacionalistas, ou perplexas, e em busca de um sentido... Neste contexto aparece a entrevista a uma educadora, e ela aposta na importância de se fazer uma pergunta e deixa no ar a seguinte interrogação: Por que este sujeito escolhe a escola como alvo de sua violência? Por que a escola?

Passemos agora ao filme-

Um pátio cinza... Sim começo minha fala por este espaço focalizado no filme de vários ângulos, em diversas situações, com ou sem alunos, e com ou sem professores. Este espaço cinzento do piso as paredes, e que se permite ganhar colorido com a presença dos jovens que ali circulam. Restrito a um retângulo de paredes altas... entre muros...
O filme começa com este professor de Frances, François Marin, Sr Marin, chegando a uma escola do ensino fundamental, da periferia de Paris, e na seqüência em uma reunião geral de recepção aos novos professores. A escola esta sendo preparada para receber os alunos, limpeza do espaços, ajustes nos móveis, distribuição de carga horária e informações sobre as turmas e seus respectivos integrantes.
Um primor de realidade o repasse de informações sobre os alunos (“bonzinho, nada bonzinho”) e devo confessar que na nossa realidade os professores, por vezes são mais cruéis, utilizando um termo nada “bonzinho”. Assim, os professores novos recebem as boas vindas, os horários, e um diagnostico (rótulos) de turmas e alunos.
Este professor, que é também supervisor desta classe, de sétimo ano, o que para nós poderá ser referenciado com o regente de sala, ou professor representante de turma (?!), parece um produto das relações de poder, e da violência ora velada, ora explicita existente na instituição escolar.
Já no primeiro encontro com a turma a sua apresentação de certezas, com relação ao tempo de aula, é destituída de coerência, chamando-o a rever um equivoco quanto à literalidade de seus argumentos. Ao que ele no papel de professor não assume. Em seguida novamente um pequeno embate com relação à apresentação dos nomes, ele manda escrever os nomes para a apresentação, mas não explica o porque. Faz-se necessário a intervenção de uma aluna, que também solicita a participação do professor na atividade. Aqui fiquei pensando, “putz” este cara tá nervoso, mesmo ele não gostando de ser chamado de “cara”... E fazendo uma articulação com a teoria lacaniana se para ocorrer à transferência é necessário que este sujeito que busca saber tenha o outro (aqui o professor) no lugar de sujeito suposto saber, como aquele que pode ocupar um lugar de confiança, no sentido de saber algo que ao sujeito interessa. Neste primeiro encontro o professor pode-se dizer destituído de seu lugar de saber, e ele se dá conta disto. E aqui fiquei pensando o quanto da escola tradicional tem este professor, pois um professor construtivista teria outra entrada nos temas, ou, ao se deparar com um equivoco assumiria este de outra forma, mesmos rígida. Afinal o erro é entendido como produtivo como possibilidade de pensar o novo (de novo)...
Procurado pelo professor de historia para trabalhar livros em comum, François deixa explicito sua falta de credibilidade na capacidade de seus alunos, e parece pouco entusiasmado com a proposta.
Neste contexto contemporâneo de uma escola integrada por sujeitos (alunos) de varias culturas (chineses, marroquinos, africanos, etc), religiões e classe sociais, o roteiro leva em conta a questões próprias da adolescência, e da adolescência neste momento histórico.
O filme apresenta uma longa cadeia de atividades propostas a partir do professor, ao que os alunos participam como podem se defendendo das ironias, caretas e advertências do professor.
François parece não levar em conta a linguagem que ao mesmo tempo serve de referencia (código) para uma determinado grupo cultural (e familiar) e a um grupo de pertencimento por afinidade (adolescentes). Não considera que ao trabalhar as palavras e seu significado, também se trabalha com o pertencimento do sujeito a um determinado grupo, e conseqüentemente a angustia da perda deste lugar. E não apenas a falta de vocabulário, como parece marcar o professor.
Os alunos são corajosos, não tem vergonha de perguntar, mesmo com a possibilidade do “professor pegar pesado”.
Uma cena novamente desmascara o professor, quando uma aluna pergunta: Como sabemos o que usamos para escrever e falar?
Ele, o professor, se perde ao sugerir intuição como forma de direcionar a escrita, ao que outro aluno questiona o significado de intuição.
Segue a cena que vai anunciar a expulsão de Souleymane, a pergunta sobre a sexualidade do professor. O aluno ao ser porta voz da curiosidade, uma tanto maldosa, questiona mais que a sexualidade do professor, questiona seu papel, sua função - Poderia ser escutada como: o que você (François) esta fazendo aqui? Mas, tomada como uma afronta, reprimida de ação punitiva (a pergunta), o professor até tenta levar adiante um trabalho pedagógico com este aluno. Mas, Souleymane, desconfia da atitude do professor com ralação ao seu auto-retrato, tanto é que pergunta: você esta me gozando?
E, para evitar o meu, agora longo comentário, fiquei com a certeza da violência não assumida de François, que contraditoriamente pode tratar de forma grosseira os alunos, mas que se coloca como alguém acima de punição, fumando em lugar proibido, ao permitir o uso do celular, ao relatar apenas o que lhe é conveniente nos relatórios, e ao arbitrariamente explicitar que o professor pode dizer coisas que os alunos não podem. Ele até propõe discussões e se coloca com duvidas na frente dos outros professores nas questões relacionadas às punições (12 no ultimo ano), contudo, não consegue avançar. Por que, quem sabe, não queira se implicar com o outro – o aluno? O aluno que frente à autoridade imposta do professor e do conselho disciplinar não pode ser acolhido, escutado.

Sandra Guimarães, 08 abril/2011.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Comentários do filme "Entre muros", por Marise Pinto

A tensão que se inicia com a volta às aulas é gerada no embate que se estabelece entre professor e alunos de uma escola de periferia de Paris, filhos de imigrantes das colônias francesas que reivindicam seu lugar na Pátria colonizadora. Embora sejam franceses não são vistos como tal pelos franceses, e eles mesmos não se sentem franceses verdadeiramente.
Por um lado os alunos não acreditam na boa intenção do professor que se esforça em fazê-los superar as desvantagens que ele mesmo credita a seus alunos. Por outro, os alunos criticam e desvalorizam a linguagem ensinada nas aulas de francês como sendo coisa de “Branco azedo” pedante, que não está em consonância com a realidade deles.
O imaginário liberado, que o professor tenta controlar com a palavra, provoca uma ruptura na delicada tessitura tramada pelo simbólico. Duas alunas são o estopim do desencadeamento de vários equívocos que chegam à situação extrema que terá como conseqüência a expulsão de um aluno da escola e talvez do seu retorno ao país de origem.   
O final do filme desvela o fracasso da boa intenção do professor e o êxito do gozo não acolhido pela escola, quando a aluna confia ao professor a sua mais íntima verdade: “Eu, eu não aprendi nada”.    

sexta-feira, 25 de março de 2011

Psicanálise e Cultura

Novo ano de trabalho, e mantemos o convite à produção na intersecção destes campos: psicanálise e cultura.
Seguindo na linha introduzida por Freud de conceber a teoria da prática clínica, temos tentado pensar teoricamente a partir de questões da atualidade que nos inquietam. Assim sendo, nosso desafio é valermo-nos da teoria psicanalítica que ajudem a pensar, a apreender a realidade. Realidade que Lacan nos mostrou que é construída, que não é dada de antemão. Assim, segue o desafio - bom desafio, instigante, já que tem se mantido entre nós do Núcleo - de utilizarmos os recursos simbólicos e imaginários para compreendermos o real. O real que ao se apresentar na cultura podemos nomear de “o mal-estar”.
Neste espaço que estamos construindo, contamos com a participação de pessoas tão interessantes vindas de outras áreas, com outros saberes, que incitam os já iniciados na psicanálise a reinventá-la a cada novo impasse que a cultura impõe.
Na reunião do dia 15/03, discutimos a partir da prática de uma das pessoas presentes, feito em comunidades de baixa renda e junto a adolescentes trabalhando no tráfico. Tentamos apreender o que se passa aí pensando que esta é uma das formas em que se manifesta a cultura do gozo desmedido. É a outra ponta, complementar ao consumidor, ao viciado; do “trabalhador” do tráfico, que paga com a integridade do seu corpo para fazer esta máquina funcionar.
Fica o convite para os que tiverem interesse em discutir os impasses da vida com outros – e não há outro jeito para a humanidade do que viver com outros- e de que forma a psicanálise pode ajudar a pensá-los.
Usaremos como material de discussão o capítulo 4 “Dificuldades com o real: Lacan como espectador de Alien”, do livro Como Ler Lacan, de Slavoj Zizek, ed Zahar. O material encontra-se a disposição para fotocópia na secretaria da Seção.
Até terça, dia 29/09, às 20h00.

Soraya Valerim - Coordenadora de Núcleo Psicanálise e Cultura
Soraya@floripa.com.br- 9963.7773

Comentários sobre o filme: "A fita branca"

O comentário a seguir foi apresentado na atividade "Psicanálise vai ao Cinema", no dia 18 de março de 2011, por Gresiela Nunes da Rosa - psicanalista

É impressionante pensar que Adolf Hitler tenha formulado uma teoria de extermínio de tão longo alcance e mais impressionante ainda é saber que tal teoria ganhou a realidade prática de maneira tão destrutiva. Mas talvez ainda mais impressionante é saber que sua idéia para ter alcançado a execução prática necessitou e contou com muitos. Não foi Hitler quem pôs em ação toda a sua idéia de extermínio daqueles que segundo ele mesmo eram de estirpe inferior como os testemunhas de Jeová, eslavos, poloneses, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais, e, claro, o judeus. Hitler necessitou de muitos outros para colocar em ação suas idéias. E muitíssimos outros estiveram do seu lado, realizando o extermínio de milhares de pessoas. E por que, como, estes outros puderam compactuar com a idéia de Hitler? Como tantos juntos puderam compartilhar uma noção tão equivocada? Esta é uma indagação que desde o acontecido está presente no pensamento de muitos. E muitas hipóteses foram expressadas.
Parece que “A fita branca”, mesmo sem explicitar, nos convoca a concordar com uma teoria. A teoria de que o estilo de vida, a educação, a moral severa, estas bastantes vinculadas à agressividade, tenham repercutido no ímpeto dos sujeitos a também exercer a mesma agressividade severa sobre os outros. Wilhelm Reich formulou esta hipótese, a de que uma vida tomada por repressões demasiadas necessariamente repercute em neurose grave, e é um fator determinante para a uma aderência à ideologia fascista. 
“A fita branca”, como podemos perceber, retrata uma comunidade alemã, no início do século XX. Vários acontecimentos misteriosos giram em torno do tema da violência e da agressividade, outros nem tão misteriosos e até totalmente explícitos também giram em torno do tema da agressividade. É um filme angustiante, irritante, perturbador, e faz surgir em nós, talvez vocês concordem, sentimentos de raiva e tensão agressiva. Indignamos-nos com tamanha repressão moral e religiosa impingida aos personagens do filme, principalmente às crianças, temos um verdadeiro sentimento de revolta e absurdo. E pensamos, “não é à toa que estas pobres crianças, vinte anos mais tarde se tornaram os criminosos responsáveis pelo nazismo, pelo holocausto”. Quase que nos compadecemos pelos criminosos, porque interpretamos diante dessas imagens que o mal tem uma raiz, tem um sentido. E neste caso, a raiz do mal que foi o nazismo está nitidamente representado nos modos de vida destes alemães. O interessante é que mesmo sem o explícito, fazemos rapidamente esta conexão. 
Ao ser indagado e criticado pelo fato de o filme fazer “uma distorção performática que permite ao espectador flertar com a perspectiva de uma despolitização das raízes do nazismo e de uma germanização do próprio mal”[i], Haneke faz o seguinte comentário:
“Não ficaria feliz se esse filme fosse visto como um filme sobre um problema alemão, sobre o nazismo. Este é um exemplo, mas significa mais que isso. É um filme sobre as raízes do mal. É sobre um grupo de crianças, que são doutrinadas com alguns ideais e se tornam juízes dos outros – justamente daqueles que empurraram aquela ideologia goela abaixo deles. Se você constrói uma idéia de uma forma absoluta, ela vira uma ideologia. E isso ajuda àqueles que não têm possibilidade alguma de se defender de seguir essa ideologia como uma forma de escapar da própria miséria. E este não é um problema só do fascismo da direita. Também vale para o fascismo da esquerda e para o fascismo religioso. Você poderia fazer o mesmo filme – de uma forma totalmente diferente, é claro – sobre os islâmicos de hoje. Sempre há alguém em uma situação de grande aflição que vê a oportunidade, através da ideologia, para se vingar, se livrar do sofrimento e consertar a vida. Em nome de uma idéia bonita você pode virar um assassino.”[ii]
De qualquer forma, em seu discurso, Haneke não nega seu maniqueísmo, pelo contrário o reafirma. Talvez melhor tenha sido o seu discurso diante de alguma pergunta sobre qual era a mensagem de seu filme “A professora de piano”, quando respondeu: “Meu filme não tem mensagem, isso é coisa para os correios”.
A perspectiva, apontada para a psicanálise, de que o principal motivo da aderência ao nazismo tenha a ver com o fator libidinal na população alemã, no que diz respeito ao alto grau de tensão e repressão (perspectiva reichiana?), é bastante tentadora para nós. E ainda podemos somar a esta perspectiva, ainda outros fenômenos, também subsidiados pela psicanálise de que o sucesso do nazismo foi motivado pela “identificação imaginária com um líder carismático e paternal[iii] (perspectiva freudiana?) Ainda uma terceira hipótese com bases psicanalíticas parece ter sentido: a da identificação simbólica dos sujeitos entre si através da captação da semelhança de traços entre eles, uma questão de construção de semblantes.
A crítica à Haneke baseia-se no fato de que sua produção, bem como a maior parte do que se produziu culturalmente a respeito do nazismo, segue a linha de que há uma germanização, genética inclusive, no que diz respeito ao nazismo. Sempre aí sugerido o princípio maniqueísta de interpretação do fenômeno, representado de forma espetacularmente teatral. 
Mas o fato é que gostamos da idéia de buscar um sentido, principalmente para aqueles acontecimentos que, queremos crer, podemos mantê-los controlados e quem sabe distantes. Fazemos, como dizemos na psicanálise lacaniana, um movimento do tipo àpres-coup, depois de acontecido o fenômeno 2, buscamos como sentido um fenômeno primeiro, o 1. E claro que algo tão desmesurável como o acontecimento do nazismo e suas conseqüências, como o holocausto, queremos compreendê-los para mantê-los sobre controle e afastado de nós tal possibilidade. Gostamos da idéia de que se tratarmos bem nossas crianças e se não nos reprimirmos tanto manteremos o mal à distância. 
Haneke, além da crítica que sofre sobre o tal equivoco a respeito da interpretação do que fez resultar o nazismo, também recebe críticas no que diz respeito ao estilo de linguagem que utiliza não só neste filme mas também nos outros de seu currículo, que é o cinismo.
Parece bastante interessante esta discussão. Entende-se, resumidamente, como cinismo um não-engajamento do sujeito em relação ao que diz[iv]. É interessante perceber que a história no filme é relatada pelo professor, que está um tanto quanto fora da própria história, e relata-a sem muita emoção, quase como um pura e qualquer descrição dos fatos, restando a nós, os expectadores o julgamento e o sentimento em relação aos acontecimentos relatados. Cinismo é uma forma de racionalização. E um certo tom de relativismo presente no discurso cínico, como toda a racionalização, tampona o não sabido e o que decorre disso, o desamparo. A crítica que se faz a esta possibilidade discursiva é que ela “é capaz de sustentar muito bem uma mentira sem que haja a necessidade de se questioná-la a partir da verdade como valor de referencial”[v], e assim, dá pouquíssima margem para o pensamento reflexivo e crítico.
Mas é interessante a idéia de que se tenha utilizado este mecanismo discursivo para falar sobre algo tão indizível quanto o que foi o nazismo e o holocausto. E de qualquer forma fica a questão: é justo que queiramos uma ética, ou talvez mais, uma moral, na arte?


[i] Feitosa, Frederico Antonio Cordeiro. Cinema e cinismo: distorções performativas e fruições contemporâneas em Michel Haneke. In: Estudos de Cinema, no. 23. Porto Alegre: Famecos/PUCRS, agosto de 2010.
[ii] Entrevista concedida a Anthony Lane, na revista “New Yorker”, em 05 de outubro de 2009, livremente traduzida por Maurício Stycer.
[iii] Feitosa, idem.
[iv] Idem.
[v] Idem.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Homenagem a nossa querida Vanessa Nahas

Para que estamos aqui? Em primeiro lugar estamos para corrigir uma grave omissão de longa data: dar um nome a biblioteca. Ela, que vagava simplesmente como uma pária da Seção Santa Catarina pela internet, pelo EBP Vereda, AMP Uqbar, os e-mails, os boletins, os UM por UM, ou seja pelo mundo. Ela que circulava como mais uma entre outras diretorias, a diretoria geral, a de cartéis, tesouraria, secretaria, intercâmbio e até do conselho..., ela, no entanto, essa filha apócrifa, sem identidade podia se gabar de ter uma particularidade, seu acervo incluía figuras eminentes, a flor e a nata da psicanálise, sem esquecer, que essa é a sua missão. Missão que dada às condições não excluía certo mal-estar, pelo fato de ter que escutar a cotidiana ladainha pomposa; tem o volume 4 das obras completas de Sigmund Freud, o Seminário 5 de Jacques Lacan está emprestado? A última aula do curso de Jacques Alain Miller está na xerox? Ela tinha que escutar tanto belo nome próprio, sem ter nenhum. Por isso hoje a homenagem é para nossa biblioteca, um dia memorável. Ela vai se chamar Vanessa Nahas, e foi preciso que ela, a Vanessa, fosse embora sem a nossa concordância.
A homenagem, não sem luto, não sem dor, faz parte de nosso esforço de fazermos um bom uso dos momentos preciosos que compartilhamos com ela, como se anuncia o convite. Nasce quando a editorial da revista diz que fomos “todos seqüestrados de sua alegria, de seu amor e de seu desejo decidido pela psicanálise da orientação lacaniana do Campo Freudiano...”. Perdemos todos. E hoje não adianta nos reunir aqui para contar seus méritos curriculares porque os colegas, amigos e parentes sabem de seu esforço dedicado e leve. Nem adianta considerar seus méritos de caráter, atitude, humor, temperamento ou índole, como é de praxe, também os que a conheceram lembram. O que nos pode convocar hoje é seguir a trilha traçada por Vanessa e que temos a sorte de poder continuar. Ela própria que sabia que as palavras fisgam, capturam e prendem, nos deixou a prova.
Interessada em perseguir a trilha freudiana na obra de Mário de Andrade, o autor de “Macunaima”, destaca entre outros um texto chamado “Sequestro da Dona Ausente”. Nele Mário de Andrade estuda o folclore popular luso-brasileiro e as ressonâncias que teve na poesia brasileira. A Dona Ausente é o sofrimento causado pela falta da mulher amada pelos navegadores, de um povo de navegadores. Ele refere-se à presença, no nosso folclore musical, especialmente nas cantigas de roda, do tema da mulher que vem de barca, pelo rio ou pelo mar, ao encontro do cantor, que no folclore brasileiro transforma o mar em terra, e que ao invés de se externarem como desespero, metaforizam-se nas imagens e símbolos da poesia.
Vanessa no capitulo um intitulado “Seqüestro” disse... “Analisaremos o sequestro como uma operação que aponta para o processo enunciado por Freud como recalcamento, e a sua relação com as formações do inconsciente e com a sublimação”. O Mário diz estar convencido de que isto “não é mais que a sublimação da celebrada falta de mulher que o colono sentiu na América quando veio praqui”. A palavra sequestro, mais do que a idéia de afastar algo da consciência – que, desalojado do centro da cena, pressiona pelo retorno, conforme a definição freudiana da repressão ou recalcamento –, aponta para o sentido de “tirar do caminho usando a força (ou a sedução)”, implicando uma experiência que conota violência. Poderíamos, assim, pensar o sequestro como um saber desalojado, arrancado da cena violentamente. Com o termo sequestro, no caso do navegador e da Dona Ausente, Mário traduz a violência da experiência de separação dos amantes, que passa a expressar-se indiretamente, lateralmente, através das quadrinhas e cantigas do folclore luso-brasileiro, e isto porque mesmo considerando um tanto
exagerada a idéia, registra esta citação de Freud “No sonho é a criança que permanece com todos os seus impulsos.”
Vemos assim um outro sentido da palavra sequestro que por deslocamento, se associa a sublimação. Mário chama a atenção para o fato de que as cantigas de roda infantis são feitas por adultos, e que no fabulário universal há muitos exemplos de que induzimos os outros a fazerem aquilo por cuja experiência, por alguma razão, não queremos passar.
“Coisas de que a grandiosidade trágica desapareceu, purificada a premência da vida no círculo gracioso dos sustos infantis”. Outro “plus” que a noção marioandradina de seqüestro implica é o fato desta remeter a uma experiência de significado coletivizável, na medida em que o marujo e o colono recém-chegado transformam a saudade, o sofrimento, em quadrinhas e cantigas, passando do que seria uma experiência individual para uma experiência compartilhada.
Ela nos deixou o recado, transformar a dor da separação em invenção, em criação coletiva. Acabamos de inventar uma, transformar uma bastarda em filha, ela, a biblioteca, agradece e nós não estaremos mais sozinhos dela, ela tem um lugar não só no nosso coração.

No dia 17/12/10, aniversário de Vanessa Nahas, declaramos inaugurada a Biblioteca da Seção Santa Catarina - Vanessa Nahas

Silvia Emilia Espósito

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Miller com Lacan

Na quarta-feira - dia 19/01/2011 - às 14h00 no Teatro Déjazet, 41 Boulevard Du Temple, 75003 Paris - Jacques Alain Miller iniciou seu curso de Orientação Lacaniana de 2011.
Contarei um pouco, para vocês, como fotografo este momento histórico dos 30 anos após a morte de Jacques Lacan (1981-2011) - coincidindo com os mesmos 30 anos do ensino de seus Seminários (1951-1981) - no qual Jacques-Alain Miller anuncia a conclusão de seu trabalho no estabelecimento destes. Trinta anos de trabalho em que Miller manteve vivo entre nós não somente a presença de Lacan, como nosso desejo de saber, tendo o cuidado e a precisão - tal como Lacan em seus Seminários - em deixar ao fim de cada Curso de Orientação o apetite para o próximo. Atualizando este momento histórico, marcado pela conclusão do estabelecimento dos Seminários de Jacques Lacan por Jacques-Alain Miller - do primeiro intitulado "Os escritos técnicos de Freud" ao último "Momento de concluir", tendo acrescentado a estes, ainda, a produção escrita do "Homem dos Lobos", "Homem dos ratos", "A topologia e o tempo", "Objeto e representação" e "O Extremo do Seminário", que faz referência à dissolução da Escola Freudiana de Paris, como Miller anunciou em 19 de janeiro - meu apetite torna-se ainda mais voraz pelo que está por vir em termos de autoria do próprio Jacques-Alain Miller, em um momento posterior à conclusão desta elaboração.
Em breve, teremos nas prateleiras das livrarias francesas o produto desta publicação e na mesa dos tradutores da obra de Lacan em nossa Escola Brasileira de Psicanálise, a oportunidade de tornar este produto a razão de muitos trabalhos a realizar.
A marca  "textos estabelecidos por Jacques-Alain Miller" explicitada na página de rosto de cada Seminário foi uma decisão do próprio estabelecedor, contrariando o dito de Lacan de constar seu nome como co-autor. Assim, permito-me pensar não em um ato de humildade, mas na posição de analista, de semblante de objeto substancialmente opaco. Em outras palavras, seu nome encontra-se dentro de cada Seminário, porém fora da capa, da aparência e do brilho de cada cobertura.
O trabalho de Miller em transformar a voz de Lacan em escrita, faz parte também deste mesmo registro. Sublinha-se ainda a dedicação, do estabelecedor desta obra, em decifrar, interpretar e traduzir "as pilhas de papéis desordenados", que estavam acumuladas nas prateleiras de Lacan. Retomando o curso de Orientação "A vida de Lacan", aula número seis, encontra-se uma fala de Lacan dirigida à Miller - "Você me fotografou perfeitamente na minha apresentação" - neste contexto, Lacan reafirmava um enunciado disposto a não amenizá-lo, diferindo assim da sugestão de Miller. Esta referência marca um ponto que talvez tenha servido como sustentação na decisão de Miller em proferir este curso sobre a vida de Lacan. Esta última afirmação de Lacan que sublinha o recorte fotográfico de Miller em relação a interpretação de sua vida, explicita o reconhecimento de Miller por Lacan. Miller, no ano que passou, autorizou-se a falar d' "A vida de Lacan" e segue neste ano corrente com "A obra de Lacan". "Vida e Obra" que Miller participou ativamente durante 16 anos. Na vida, Miller marca seu desejo de pinçar a singularidade, de contornar o Um, de traçar a diferença de Lacan, dirigindo sua fala às historias que contam o cotidiano de Lacan com um binóculo que foca no diferencial. Na escrita da Obra, Miller segue passo a passo a lógica de Lacan, fundamentando-se nos Escritos, onde está redigido a direção a seguir e cristalizado as diferenças conceituais ao longo da obra de Lacan. Neste primeiro curso de orientação sobre a "Obra de Lacan", Miller chama nossa atenção para os personagens lacanianos que se repetem com o mesmo nome e registro, porém portam, a cada diferente momento, uma singularidade que sinaliza uma nova maneira de se articular, por exemplo o objeto, o grande Outro, entre outros. Lacan inventou o saber teórico de seu ensino e o transmitiu nos Seminários semanais ao longo de sua vida. Endereçava-se a um público de psicanalistas que se deslocava ao seu encontro para escutá-lo. Também escreveu os textos dos Escritos e dos Outros Escritos, onde isola os significantes importantes e fixa a doutrina de seu ensino. A escritura destes textos foi realizada para atender à Demanda de um outro sujeito; são textos endereçados e dirigidos a um público determinado, um colóquio, um prefácio, ao rádio ou à televisão. Ao nome Jacques Lacan está gravado o título de autor em todos os vinte e cinco Seminários por ele conferido. Este significante "autor" desdobra-se numa série de questões que não podem deixar de serem mencionadas. Lacan, em seu curso de 26/02/1969, articula o significante "autor" ao conceito de "originalidade" proferido por Michel Foucault na semana anterior. Assim, a discussão interroga não somente "o que é ser um autor", mas também interroga "a função do nome de um autor". Contrapondo-se ao significante "originalidade", Foucault destaca o valor da função do "retorno a". Neste ponto do "retorno a", Lacan sente-se convocado, pois ele mais do que ninguém colocou em evidência um "retorno a" Freud. Em paralelo, não se pode deixar de assinalar aqui, um outro "retorno a", o "retorno a" Lacan realizado de forma inaugural e fotográfica por Miller. o trabalho de restituição da obra de Lacan, Miller ocupa um lugar onde ele se permite não responder de imediato a cada Demanda. Ele dispõe de seu tempo, sai da ordem do imaginário, desaparece da cena, posicionando-se silenciosamente na sombra, como objeto opaco do discurso do analista. A densidade do pensamento de Miller está marcada tanto por seu ensino de Orientação Lacaniana quanto por sua clarificação no estabelecimento dos Seminários e pela consistência na autoria de suas obras. Neste último ano, pode-se destacar de seu curso de orientação sobre "A vida de Lacan" seu movimento de pinçar a singularidade do personagem Lacan. O início de 2011 é marcado pela conclusão da escrita dos 25 Seminários, em que Miller leva a sério a formalização deste ensino. No curso inaugural de orientação de 2011, "Obra de Lacan", a dedução da lógica milleriana é explicitada na sua forma de trabalhar, na busca da palavra de Lacan que ficou por dizer ou na restituição da palavra que foi dita de maneira obscura, no seu estilo de clarificar conceitos, enfim no seu percurso traçado para o estabelecimento dos Seminários e na revelação de seu processo de compreensão da língua lacaniana. Não se pode deixar de sublinhar, também, sua aposta na causa e no funcionamento de nossa instituição psicanalítica. Montado este cenário - sujeito, escrita, ensino e escola, temos diante de nós os pilotis que nos são caros. A aposta no funcionamento da combinação destes quatro pilotis evidencia o posicionamento de Miller e nos impulsiona ao trabalho pela causa analítica.                                                     

Rosane Padilla
rosanepadilla@hotmail.com

domingo, 7 de novembro de 2010

Invenção do comtemporâneo

Neste mês de novembro a TV Cultura exibirá a série Invenção do Contemporâneo "A psicanálise do Século XXI: Lacan para desesperados da crise", promovida pela CPFL Cultura, sob a curadoria de Jorge Forbes:

09/11 - à 1h de segunda para terça-feira - Joel Birman - Novas subjetivações e o mal estar na contemporaneidade.

16/11 – à 1h de segunda para terça-feira - Alain Grosrichard – Mal estar na globalização: Lacan e as luzes.

23/11 – à 1h de segunda para terça-feira - Jorge Forbes - Jacques Lacan e a psicanálise do Século XXI.

30/11 – à 1h de segunda para terça-feira - REPRISE - Alain Grosrichard – Mal estar na globalização: Lacan e as luzes.
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