domingo, 5 de agosto de 2012
domingo, 22 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de julho de 2012
domingo, 8 de julho de 2012
Procuram-se homens. Os interessados apresentarem-se em qualquer esquina. (1)
Sob este título instigante e irônico, Gustavo Dessal –
psicanalista, membro de ELP-Madri e da AMP – nos apresenta suas reflexões sobre
o indiscutível impacto que nos homens da Europa contemporânea está produzindo a
“legítima ascensão histórica das mulheres celebrada publicamente como uma
conquista da civilização ocidental”. Cabe agora a nós, psicanalistas deste lado
do Atlântico, explicitarmos a percepção que estamos construindo e manifestarmos
o que já temos avançado na conceitualização desse fenômeno que o colega da ELP
analisa. Muito embora tenha me parecido que por momentos uma certa nostalgia dos
tempos do reino do pai se apodera de algumas passagens do texto do colega, sem sombra
de dúvidas há, na reflexão de Gustavo Dessal, elementos que muito nos ajudam a
pensar sobre nossa experiência analítica com homens e mulheres de nossos dias e
destas latitudes.
“Os homens são cada vez mais censurados por praticar sua
masculinidade sendo simultaneamente recriminados por não querer exercê-la.
Encurralados ambos os sexos nesse paradoxo, os homens se movimentam na
incerteza de não saber como ser, enquanto as mulheres tentam resolver uma
equação que tem se tornado para elas a quadratura do círculo: conseguir que o
gatinho que agora esfrega a louça e passa roupa continue sendo um tigre na
cama”, escreve Dessal. Perspicaz e ao mesmo tempo algo precipitada esta conclusão
do colega da ELP. Perspicaz porque temos neste parágrafo o claro reconhecimento
de que o saber masculino sobre “como ser”
nada deve à biologia ou à vontade divina, uma vez que o ser é da ordem dum
semblante que vem cobrir o furo do real da inexistência de alguma proporção
entre os sexos. Mas, algo precipitada, porém, porque não é certo que esse homem
tenha sido alguma vez um tigre na cama para essa mulher; não é certo que ela o
tenha escolhido pelos seus dotes de Ricardão, assim como também não é certo que
lavar a louça ou passar a roupa produza num homem a falência de sua virilidade.
O um por um continua sendo a boa medida.
A perspicácia da análise de Dessal também se põe de
manifesto na idéia de que historicamente os homens pouco se ocuparam de sua
identidade, uma vez que a condição de proprietários do pênis representava já uma
garantia do ser. Eu gostaria de acrescentar à reflexão de Dessal que pareceria
que uma das condições para que essa garantia não consiga seguir se sustentando
esteja no fato das mulheres terem conseguido se desvencilharem de séculos de
discurso amo no interior do qual não só mãe e mulher estavam naturalmente
coladas quanto que correspondia às mães a tarefa de polir as insígnias fálicas
dos seus filhos varões. Esse movimento questionador que fez com que elas tenham
separado a maternidade da identidade feminina produziu efeitos na própria posição
de mãe e isto tem trazido, sem dúvidas, conseqüências no campo dos outrora seguros
proprietários do órgão. Numa importante extensão do planeta já não se fazem
mais mães que celebram o filho macho como antigamente.
O desabamento do sistema patriarcal que durante séculos foi
a referência que ordenou o laço entre homens e mulheres produz efeitos de
orfandade em ambos os sexos que cada vez são mais evidentes no dizer dos
sujeitos que nos consultam. A criança generalizada e desnorteada toma conta dos
laços e, assim, novos sintomas no masculino e no feminino pipocam pela cidade
afora. Um exército de “experts” se candidata a ensinar como devem comportar-se
os homens, as mulheres, os pais, as mães, as crianças e os filhos. Hoje tem
escola para tudo, até para tentar fazer desaparecer a diferença na posição de
gozo dos seres falantes. Uma paixão democrática de igualdade, como diz Dessal, e
o imperativo do encontro apropriado entre os sexos tem tomado conta das
práticas terapêuticas dos dias de hoje e cada vez que o “isso falha” próprio do
humano se manifesta, novas tentativas de domesticação do impossível de
adequação entram em vigor.
Sob o título “Um
mundo mais feminino. Que conseqüências para a clínica psicanalítica”, nossa
Jornada de Seção está sento preparada. Há
muito para estudar, refletir e aprender das produções que nas diversas áreas do
saber vem surgindo na tentativa de articular respostas perante as aventuras e
desventuras dos homens e das mulheres do tempo em que nos cabe viver. Esperamos
sua colaboração!
Oscar Reymundo - EBP/AMP
(1)
O texto de Gustavo Dessal foi publicado em Mujeres, una por una. Eldar, Shula
(compiladora) España, Colección ELP. Editorial Gredos, 2009. PP. 25-36.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Algumas palavras de nosso trabalho de cartel “Autismo” para o lançamento do livro*: Autismo(s) e Atualidades: uma leitura lacaniana
Gostaríamos nesta ocasião compartilhar com vocês um pouco do nosso trabalho sobre o autismo. Interessamo-nos em pesquisar este tema há uns dois anos atrás, quando um trabalho muito interessante na EBP-Rio nos convocou a participar na elaboração de questões teóricas e clínicas.
Dois anos depois nossas questões, que nos lançam ao trabalho, encontram-se já bem definidas e nosso cartel começou uma segunda etapa de elaborações. Tivemos até a oportunidade de poder enviar parte dela à ECF, em Paris, para participar do debate atual sobre o autismo.
O lançamento deste livro é uma convocação para “embarcarmos”, já que estamos na “barca dos livros”, num universo que é especificamente da Linguagem; embarcarmos na linguagem do autismo.
A pessoa autista tem muito a nos ensinar e muito a nos dizer, até quando não falam. Mesmo sem fala o autista encontra-se na linguagem e sabemos disto porque Lacan afirmou sua tese fundamental “O inconsciente está estruturado como uma linguagem”.
Partindo desta tese, todas as construções teóricas ao longo da vida de Lacan, até especificamente seus últimos anos de ensino, conduzem, poderíamos dizer, até o autismo, mas por quê?
Porque é no seu último ensino que Lacan prioriza, como eixo clínico para a direção do tratamento o que chamou de “real”. E é justamente neste real onde o autista se aloja num encapsulamento singular. O real, poderíamos muito simplesmente pensá-lo como o que está excluído do simbólico, do mundo dos discursos, das palavras que marcam um sujeito fazendo “corpo” e outorgando-lhe uma subjetividade.
Perguntamo-nos:
1) Qual o entrave na constituição do corpo no autismo?
2) Existe um Outro para o autista? Que Outro seria este?
3) Há uma possível escolha no autismo? Ou eleição de liberdade?
4) Que ótica para abordar o autismo? Que lugar habita e por quê?
Encontramos na psicanálise de orientação lacaniana as ferramentas teórico-clínicas para a abordagem destas perguntas, sustentadas na clínica de analistas do mundo todo, que testemunham, assim como no livro que hoje é lançado, que a partir de seu saber fazer com o autismo a psicanálise de orientação lacaniana tem muito a oferecer.
O que tem a psicanálise a oferecer?
Lacan afirmava em 1975, numa conferencia na Universidade de Yale, que os autistas são pessoas para quem o peso das palavras é muito sério sem poder se encontrarem a vontade com elas.
Acolhemos a pessoa autista a partir de uma posição ética, é desde esta posição que encaminhamos o tratamento. O tratamento prioriza a construção que cada autista, um por um, no caso a caso, constrói como tentativa de estabelecer laço com o Outro. Para a psicanálise estas construções são tentativas de cura por parte do autista e estas balizam, para o analista, o caminho a seguir já que são o “indício”, o “signo” de uma subjetividade a advir, algo original, único, que foi construído para lidar com essas palavras que o invadem, aterrorizam e presentificam a coisa.
Donna Williams, uma autista de alto nível, deixa isso bem claro quando diz: “Procuro uma guia que me siga”.
Mas para que este “embarque” seja possível é importante que os pais sejam “parceiros”, que subam a bordo e participem da viagem, pois ninguém melhor do que eles para falar de seus filhos e do seu saber sobre a invenção singular que cada um deles elabora em suas construções, que são tentativas para lidar com as exigências perante a vida.
Desta forma a psicanálise introduz para o autista o respeito e a dignidade de sujeito, valorizando nele o que os objetos, tais como a voz, o som e principalmente as atividades repetitivas, tão desconsideradas em outras abordagens, representam no seu trabalho de resolução dos impasses perante o real.
Um analista poderá intervir, finalmente, para que eles possam viver mais à vontade com as palavras, já que é no mar da linguagem que a humanidade veleja pela vida.
*Texto elaborado por Mariana Zelis com a colaboração de Marise Pinto, Cinthia Busato (mais um) e Jussara Bado.
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